Terça-feira, 19 de Junho de 2007

Álvaro de Campos - "Acordo de noite (...)"

Acordo de noite, muito de noite, no silêncio todo.

São - tictac visível - quatro horas de tardar o dia.

Abro a janela directamente, no desespero da insónia.

E, de repente, humano,

O quadrado com cruz de uma janela iluminada!

Fraternidade na noite!

 

Fraternidade involuntária, incógnita na noite!

Estambos ambos despertos e a humanidade é alheia.

Dorme. Nós temos luz.

 

Quem serás? Doente, moedeiro falso, insonte simples como eu?

Não importa. A noite eterna, informe, infinita,

Só tem, neste lugar, a humanidade das nossas duas janelas,

O coração latente das nossas duas luzes,

Neste momento e lugar, ignorando-nos, somos toda a vida.

 

Sobre o parapeito da janela e a traseira da casa,

Sentindo húmida da noite a madeira onde agarro,

Debruço-me para o infinito e, um pouco, para mim.

 

Nem galos gritando ainda no silêncio definitivo!

Que fazes, camarada, da janela com luz?

 

Sonho, falta de sono, vida?

Tom amarelo cheio da tua janela incógnita...

Tem graça: não tens luz eléctrica.

Ó candeeiros de pretóleo da minha infância perdida!

 

 

Álvaro de Campos


publicado por Profeta às 06:40
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